Principal canal para denúncias, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, do Ministério das Mulheres, registrou, no ano passado, 1.088.900 atendimentos, quase 3 mil por dia, o que representa um aumento de 45% em comparação com o ano anterior, muito expressivo para um curto período de comparação. Desse total, 155.111 foram denúncias de violência contra mulheres. Já um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado há duas semanas, apontou que 8 em cada 10 casos de feminicídio no país são cometidos por parceiros ou ex-companheiros. O total desses crimes chegou a 1.568 no ano passado, com um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior.
Os dois levantamentos, que se somam a outros estudos e estatísticas, ajudam a dimensionar uma situação impossível de ser ignorada: a escalada do feminicídio e das agressões contra mulheres no país, que leva ao legítimo questionamento sobre as causas para essa explosão de casos. Desde o início, é importante salientar dois aspectos: o número real pode ser ainda maior, pois seguramente há crimes que são registrados meramente como homicídios, sem apontar a agravante da questão de gênero; e há diversos fatores que influenciam esse contexto, passando pelo machismo estrutural presente desde os primórdios da sociedade brasileira, e pelo neoconservadorismo, que legitima comportamentos violentos contra as mulheres.
“O aumento do neoconservadorismo no Brasil impacta de forma a tentar promover retrocessos no acesso aos direitos humanos, principalmente com relação às mulheres, seja com relação aos direitos reprodutivos e sexuais, seja no acesso à participação ativa na política brasileira, e ainda no direito à vida e à segurança pública justamente porque representam ideias retrógradas no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade”, analisa a cientista social e política Jully Anne Ribeiro da Cruz, mestra e doutoranda em sociologia e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Criminalidade e Violência (Necrivi) da Universidade Federal de Goiás (UFG).
O tema é abordado com propriedade no livro “Gênero, neoconservadorismo e democracia”, por Flávia Biroli, Maria das Dores Campos Machado e Juan Marco Vaggione. “É uma perspectiva que engessa quais são os papéis e os espaços em que a mulher pode ou não transitar na sociedade, ao mesmo tempo que defende, por exemplo, o armamento civil e reforma modelos únicos, seja de família, seja de religião, entre outros aspectos”, explica a pesquisadora, acrescentando que pesquisas mostram que o aumento de armas na população civil é diretamente proporcional ao crescimento da violência. “A arma facilita a decisão de vida ou morte, então, a maior circulação de armas vai causar um aumento de letalidade nos conflitos domésticos”, esclarece Jully Anne, que estuda o tema feminicídio desde 2017.
A pesquisadora do Necrivi acrescenta o “pensamento engessado” a que ela se refere reforça o controle masculino. “Os sujeitos que se reconhecem nessa perspectiva ideológica têm uma legitimação social e uma maior tolerância à violência, ao mesmo tempo em que há o enfraquecimento das políticas públicas”, acrescenta, citando casos recentes em que a polícia não consegue impedir que agressores se aproximem de mulheres com medidas protetivas, como o da advogada Carolina Câmara, que registrou 13 boletins de ocorrência contra o ex-companheiro Gabriel Bessa, entre setembro de 2025 e março deste ano e, na semana passada, disse ter desistido de medidas protetivas por medo de que a violência pudesse escalar ainda mais. O caso teve grande repercussão. “São questões que estão completamente atreladas”, pontua Jully Anne, acrescentando, como exemplos, condutas machistas até mesmo de juízes, promotores e delegados de polícia à frente das investigações e dos julgamentos desses crimes.
Marcadores de classe, raça e sexualidade também chamam a atenção
Aspectos como classe social, raça, sexualidade e identidade de gênero também estão presentes em grande parte dos casos de violência contra a mulher e de feminicídios no Brasil e em Goiás, destaca a pesquisadora Jully Anne Ribeiro da Cruz, do Necrivi. “Há variáveis que são estruturais, da nossa sociedade, que é patriarcal, que é machista, que é racista, que é LGBTfóbica, heterocisarmativa”, enumera. “Então, todas essas questões, essas palavrinhas-chaves vão ter impacto no aumento de feminicídio, por exemplo, justamente porque estamos falando de mulheres no plural. Haverá mulheres, entre as mulheres que foram mortas em razão do seu gênero, que também tinham outros marcadores”, destaca Jully Anne.
Para ela, todos esses fatores estão presentes na construção da perspectiva de que a mulher é “um corpo passível de morte”. “A gente tem sempre um olhar para o feminicídio como é um feminicídio íntimo”, propõe. Nesse sentido, o primeiro aspecto pode ser percebido é como a dinâmica de relacionamento é atravessada pelo machismo, pelo patriarcado. “São sujeitos que alegam não aceitar a separação, mas, na prática, o que eles não aceitam é a independência e a autodeterminação dessas mulheres”.
Jully Anne pondera ainda que há casos, dentro do volume de feminicídios, que poderiam ser classificados como transfeminicídio ou lesbicídio, relacionados com mulheres transexuais e lésbicas, respectivamente. “Temos aí um marcador de sexualidade que interfere e que amplia o risco de morte dessas mulheres”, justifica.
Sobre falhas em políticas públicas, Jully Anne relata que recentemente estava participando de uma pesquisa do Observatório das Mulheres quando foram entrevistados agentes da Guarda Civil Metropolitana que atuam junto à Patrulha Mulher Mais Segura na proteção de mulheres com medidas protetivas, que contam com botão do pânico, e eles contaram histórias impressionantes. “Eles deram exemplos de condutas rastreadas, de homens que enviam pix para a mulher de 1 centavo, porque no pix tem um campo de mensagem, onde eles dizem os desaforos que querem, ou buscam outra forma para perturbá-la e ameaçá-la”, conta. Para ela, é preciso fortalecer as políticas públicas voltadas para as mulheres em situação de violência, principalmente com a qualificação dos profissionais que nelas atuam.















