Nesta entrevista exclusiva, o analista político traça um panorama sem filtros sobre a disputa rumo a 2026 em Goiás. Ele explica por que a segurança pública — apesar de esgotada pelo governo Caiado — pode voltar com nova roupagem, quais temas realmente preocupam o eleitor goiano, e por que metade da população ainda não sabe em quem votar. A conversa destrincha a possível força eleitoral de Ana Paula Rezende, a redução da rejeição de Marconi Perillo, a dependência de Daniel Vilela em relação ao padrinho político e o impacto da prisão de Bolsonaro no tabuleiro nacional. Além disso, revela como as campanhas digitais ainda são mal compreendidas, quais eleitores realmente se deixam influenciar pelas redes sociais e por que a polarização deve persistir, mesmo sem um dos seus principais líderes.
No cenário nacional, a segurança pública deve ser o principal tema das campanhas eleitorais. Você acha que Goiás vai seguir a mesma lógica, considerando que o governador Ronaldo Caiado (UB) já quase praticamente esgotou essa pauta?
O tema da segurança pública é muito caro à população brasileira como um todo. No caso de Goiás, a situação é um pouco diferente, tanto pela narrativa quanto pelas entregas que o governador Ronaldo Caiado fez em relação a esse tema. A grande questão é: como vai ser utilizada nacionalmente, a questão da segurança pública pode retornar de uma outra forma em Goiás, questionando, por exemplo, a presença de facções do Estado, as apreensões que são feitas por aqui e um discurso antigo de que Goiás seria uma rota para essas facções ou para o tráfico. Mesmo que essa narrativa já tenha sido tratada de forma quase exaustiva pelo governador Ronaldo Caiado, ela pode aparecer na eleição estadual com uma outra roupagem: o que acontecerá com a segurança pública do estado de Goiás com um novo governador? Será mantida a mesma ordem, será mantido o mesmo nível de entrega dos programas? ou alguma coisa pode mudar. É uma situação de risco que se pode olhar nesse sentido.
E quais outros temas devem ser relevantes em Goiás, além da segurança pública?
Além da segurança pública, temas que são muito caros à população goiana passam pelo atendimento à saúde, e isso é histórico nos últimos estudos que fizemos relacionados a necessidades da população; a saúde pública é realmente uma das questões que apareciam com maior constância em primeiro lugar. Depois acabou sendo suplantado pela segurança pública. A saúde vai ser importante na próxima eleição, principalmente porque existe aquele conflito do como está ou como poderia estar a saúde pública, principalmente estadual. Outro tema que vai ser importante e que está no nosso radar é a empregabilidade e principalmente o empreendedorismo para os mais jovens. Nós temos uma camada grande da população que tem buscado oportunidades de trabalho e não necessariamente está encontrando. “Goiânia principalmente está vivendo um pleno emprego.” Sim, mas faltam prestadores de serviço, faltam profissionais especializados e há muita gente em casa que não está trabalhando. Nos dados do IBGE, a situação dos jovens que nem trabalham nem estudam de Goiás é muito próxima da média nacional. Então, isso é algo que deve ser importante dentro da campanha de 2026.
Ana Paula Rezende (MDB), em entrevista à Tribuna do Planalto, mostrou-se interessada em disputar a segunda vaga do Senado. É possível que ela venha a herdar os votos do pai, Iris Rezende?
Herdar automaticamente não é algo que acontece. Entretanto, o nome dela é muito forte e não se pode desconsiderar isso de maneira nenhuma. E os emedebistas de tradição mista ou mesmo aquelas pessoas que sentem falta da figura do Iris Rezende na política goiana, podem enxergar em Ana Paula uma situação de continuidade do trabalho do pai. Ela pode se beneficiar disso, sim. Não é automático, isso é uma coisa que vai ter que ser trabalhada em níveis comunicacional e de campanha, mas ela tem essa possibilidade e entraria dentro do processo eleitoral fortalecida. Nós não temos números nesse momento, mas nas próximas pesquisas onde isso for testado, a gente vai poder checar melhor essa hipótese.
O que as pesquisas apontam em relação à viabilidade da candidatura de Marconi Perillo (PSDB)?
Eu acredito que, por toda a movimentação política que o ex-governador tem feito, ele é candidato. O que deve ser avaliado é a viabilidade do nome do ex-governador Marconi Perillo ao governo do estado, considerando o contexto da campanha eleitoral de 2026 e a capacidade que ele terá de reunir lideranças e formar um grupo que dê apoio ao seu nome na campanha. Dito isso, temos que olhar, por exemplo, os últimos resultados de pesquisas feitas em Goiás. Em todas elas ele aparece, neste momento, com uma intenção de voto que não é desprezível, ele praticamente se encontra nas portas do um segundo turno, e um dado que é muito interessante é que, ao longo das medições que tanto a Grupom fez quanto as outras empresas de pesquisa têm feito, a rejeição de Marconi Perillo tem diminuído ao longo do tempo. Ou seja, aquele sentimento antigo em relação a ele e que acabou provocando um conjunto de resultados desfavoráveis em eleições passadas pode estar minguando com o tempo. Ele não é um nome que deve ser desconsiderado do páreo. Provavelmente ele tem números e tem análise em relação a isso e eu não o descartaria como sendo um candidato real, dentro dessa possibilidade.
Até o momento, o cenário eleitoral aponta para a possibilidade das candidaturas de Daniel Vilela (MDB), Wilder Morais (PL), Marconi Perillo e José Éliton (sem partido), representando o campo mais à esquerda. Esse cenário deve avançar até a eleição?
Considerando as informações e aquilo que se tem até o presente momento, esse é um cenário mais provável dos principais competidores do primeiro turno. Existem algumas conversas de uma possível união entre PL e União Brasil, o que mudaria esse quadro. Mas isso faz parte do reino das conjecturas. Temos que trabalhar com fatos reais. Quando os nomes decidirem ou as movimentações acontecerem, pode-se fazer uma avaliação mais criteriosa. Mas dada a movimentação, as declarações e os números que temos observado até o presente, esse é o cenário, considerando Daniel, Marconi, Wilder e o Zé Eliton, como o mais provável de primeiro turno em Goiás.
Qual a possibilidade de o Daniel Vilela receber os votos do Caiado, considerando inclusive que alguns partidos já anunciaram compromisso com o Caiado e não com o Daniel. Caiado tem possibilidade de transferir seus votos para Daniel?
Transferência de voto é algo que faz mais parte do imaginário do que do mundo real. O que temos observado é que obviamente o governador vai conferir muita força ao nome de Daniel Vilela, mas a construção da viabilidade do nome do vice-governador para o Palácio das Esmeraldas vai depender muito mais da sua capacidade de construir pontes políticas e criar um discurso próprio do que exclusivamente do apoio de Ronaldo Caiado. Ou seja, ele tem um padrinho político muito forte, mas considerando o processo de campanha, vai ter que mostrar a que veio. É visível nas redes sociais, no processo de comunicação do vice-governador, que ele tem trabalhado muito nessa direção de dar solidez ao seu nome, e, de certa forma, uma leve independência ou a capacidade de tomar decisões próprias independentes do governador, exatamente para se firmar como um candidato viável. Mas essa é uma construção que ainda precisa ser feita. Quando olhamos os resultados das últimas pesquisas divulgadas sobre a disputa ao governo do Estado, o que se nota é uma estabilização do crescimento do vice-governador. Ou seja, só o nome e só a presença, a força do governador, neste momento levaram, têm levado ou levou o nome de Daniel Vilela a um determinado patamar. De agora para frente, esse apoio vai fazer diferença, ele vai continuar contribuindo, mas muito do esforço fica focado na própria capacidade do Daniel de construir o seu caminho.
A dificuldade de Ronaldo Caiado em se tornar conhecido está relacionada a ele, é uma questão geográfica de Goiás ou há outros elementos que explicam essa dificuldade que ele encontra na pré-candidatura?
Goiás, do ponto de vista eleitoral e populacional, não é representativo. O estado não confere ao governador Ronaldo Caiado uma base grande o suficiente para dizer que ele tem pleno apoio. A questão geográfica para a campanha ou para a pretensão de Ronaldo Caiado à presidência da República impacta de forma significativa. Da mesma forma, são os acordos e arranjos políticos que são característicos do cargo. Nós estamos pensando em um governador de um estado – vamos chamar de periférico dentro do contexto nacional – que tem brigado por espaço dentro do próprio partido para se viabilizar. Existem outros nomes, existem outras dinâmicas dentro do mundo político e acho que, principalmente, outros interesses que tornam a viabilidade de uma campanha de Ronaldo Caiado à presidência algo complexo. De certa forma, ele tem lutado para driblar isso com a possibilidade de troca de partido, mas é aquela escolha complexa de ser feita, porque trocar o União Brasil e a força que o partido tem do ponto de vista nacional por uma outra federação – foi aventada a troca pelo Solidariedade – que tem um papel muito menor, não necessariamente facilita a vida dele, do ponto de vista de uma pessoa que está pensando em ter a vitória no processo eleitoral do ano que vem. Mas entre a previsão e o fato existe um negócio chamado campanha. Lá pelas tantas, algumas coisas que a gente não tem no radar podem acontecer.
Nos últimos anos, as eleições estiveram bastante polarizadas em todo o país. A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro pode alterar esse quadro em 2026?
Com a prisão de Jair Bolsonaro existe um certo enfraquecimento – podemos analisar assim – um nome forte que representava um grupo específico dentro da direita brasileira saiu de cena. Isso é um fato. Já a polarização é uma situação que temos que observar dentro de uma outra perspectiva. Quando nós olhamos o comportamento do eleitor de direita e de esquerda, podemos entender que essa característica de polarização está, como diz (professor e cientista político) Felipe Nunes, calcificada no eleitorado. O camarada que é de direita passa a ter uma relação afetiva com o conjunto de teologia da direita. É assim da mesma forma com os eleitores da esquerda. Para 2026 é muito provável que haja uma polarização um pouco arrefecida, talvez, mas ainda assim vai se fazer presente. O que não existe é uma discussão que vai depender da própria dinâmica da política, que é: quem serão os representantes de cada uma dessas alas no palco de 2026. Porque o eleitor de direita vai votar num candidato da direita. Quem será esse candidato? É algo que precisa ser escolhido e apresentado. O eleitor de esquerda vai votar num candidato de esquerda. No caso, pensando na eleição nacional, muito provavelmente o presidente Lula. Existe uma parcela do eleitorado que pode mudar de opinião, que acaba sendo a turma que realmente decide, que decidiu a eleição de 2022 e que fez diferença em 2018 também. Essa turma é que vai de fato decidir da eleição. A polarização, o aconchego do eleitor acerca de nomes que representam uma determinada ideologia, nós vamos continuar enxergando isso em 2026, sem dúvida nenhuma.
Pesquisa recente do Grupom, do final de outubro, apontou que 50% dos eleitores goianos não sabem quem votar. A um ano da eleição, o que isso significa?
Isso é uma situação muito interessante, porque é um dado esperado naquele trabalho que divulgamos. O que nós trazemos ali é a não definição dos nomes. Quando se pensa em não definição, a variável, o objeto de análise que interessa é o seguinte: os eleitores não estão preocupados com isso neste momento. A lógica da análise é a seguinte: o voto que é dado nas pesquisas de intenção de voto neste momento não necessariamente reflete a realidade do que o eleitor vai fazer na campanha. Lembrando, a pergunta da intenção de voto é: caso a eleição fosse hoje e considerando que estes os nomes, em quem você votaria? Se eu fizer uma comparação didática, é como se eu perguntasse para uma pessoa que não está com fome o que ela gostaria de comer na hora do almoço, se o almoço fosse agora, e escolhesse entre arroz e feijão. É uma conjectura, é uma possibilidade, considerando as informações que ele tem. Considerando que nós estamos a um ano de eleição, o cenário que está sendo desenhado agora pelas pesquisas mostra muito mais força do nome e lembrança do que a intenção de voto real, e que, ao longo do processo da campanha e do processo comunicacional que existe na pré-campanha, essas variáveis, esse nível de conhecimento vai mudando. Eu gostaria de lembrar, porque é algo importante, se pensarmos na eleição para a prefeitura de Goiânia, nas pesquisas que foram divulgadas em março daquele do ano da eleição, o segundo turno seria travado entre Vanderlan Cardoso (PSD) e Adriana Accorsi (PT), e nenhum dos dois nomes de fato esteve presente no segundo turno. E eram os nomes mais fortes naquele momento nas pesquisas que eram realizadas. Entre a pesquisa, neste momento, a um ano da eleição, e a eleição existe tempo e campanha, e muita coisa pode acontecer, o que pode mudar o quadro.
Como devem se comportar as campanhas digitais no ano que vem, considerando as experiências anteriores e as campanhas contra fake news que foram feitas? Ainda terão o mesmo impacto?
O terreno da campanha digital é um terreno complexo, de análise complexa, porque nós temos o seguinte: primeiro, existem algumas falácias que a gente precisa quebrar. Não são todos os eleitores que consomem conteúdo político através das redes sociais. Se a gente observar a última pesquisa Quaest que foi divulgada sobre comportamento do eleitor, é clara a evidência de que o consumo do processo comunicacional nas mídias tradicionais ou nas redes sociais depende do grau de instrução, de quem é o candidato e do perfil do eleitor. A campanha nas redes sociais vai acontecer, e existe uma ideia de que ela torna a campanha mais barata ou mais tranquila, o que temos percebido não é verdade. Há um campo aberto ali para divulgação de todo tipo de notícia que não necessariamente é verdade, não existe um método de controle, a não ser o próprio conhecimento dos eleitores em relação às notícias que são consumidas nas redes sociais. E esse aspecto ele não pode perder de vista. Hoje, quem fala melhor nas redes sociais e quem consome mais são os comunicadores de direita. O pessoal da esquerda, de maneira geral, têm mais facilidade de se comunicar pelas vias tradicionais porque esses eleitores consomem mais informações de política das vias tradicionais. Além do processo de comunicação de campanha utilizando as redes sociais, a gente vai ter que olhar primeiro qual é, quem é o meu público-alvo, ou seja, qual é o perfil do eleitor que eu preciso atingir e se esse eleitor consome que tipo de comunicação. A partir daí, eu vou construir uma campanha, um processo de comunicação que seja adequado a este eleitor. A campanha tradicional não morreu, principalmente, existe uma demanda muito grande da presença dos candidatos nos municípios, próximo ao eleitor, numa perspectiva até mais antiga. E a campanha digital vai acontecer com uma eficácia maior para públicos específicos.
Leia a edição completa da semana clicando aqui!














