A decisão do Ministério da Saúde de incorporar o cabotegravir de longa duração (CAB-LA) ao Sistema Único de Saúde (SUS) foi recebida como um avanço na prevenção do HIV. No entanto, Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta que o alto custo do medicamento e as restrições ao acesso a versões genéricas podem comprometer a ampliação da estratégia e limitar o número de pessoas beneficiadas.
O posicionamento foi divulgado durante a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro. Para a organização humanitária, a adoção da PrEP injetável representa um importante sinal para a América Latina, mas ainda depende de condições que garantam sustentabilidade financeira e acesso em larga escala.
O cabotegravir é uma forma de profilaxia pré-exposição ao HIV administrada por injeção a cada dois meses. Em comparação com a PrEP oral, o medicamento oferece maior praticidade e pode reduzir barreiras relacionadas ao uso diário dos comprimidos, além de diminuir o estigma enfrentado por parte dos usuários.
Apesar disso, a entidade considera elevado o preço definido para a aquisição do medicamento pelo sistema público. Segundo a MSF, o teto de US$ 400 por pessoa ao ano permanece muito acima do custo estimado de produção, calculado em aproximadamente US$ 30 anuais, o que pode dificultar a expansão da política pública de prevenção.
A organização também manifesta preocupação com o modelo de negociação adotado para a compra do medicamento. De acordo com a nota, a fabricante ViiV Healthcare teria concordado em fornecer doses adicionais para enquadrar a aquisição no limite estabelecido pelo governo, sem reduzir efetivamente o preço do produto. Para a MSF, esse formato não oferece previsibilidade para futuras compras nem garante sustentabilidade ao programa.
Outro ponto levantado é a exclusão do Brasil e de outros países da América Latina dos acordos voluntários de licenciamento para produção de medicamentos genéricos. Segundo a entidade, essa restrição mantém os preços elevados e dificulta a ampliação do acesso ao tratamento, mesmo em países que participaram dos estudos clínicos que contribuíram para o desenvolvimento da tecnologia.
Além do cabotegravir, a MSF cita o lenacapavir, outro medicamento injetável para prevenção do HIV, cuja incorporação também enfrenta obstáculos relacionados ao preço e às políticas de licenciamento adotadas pela fabricante.
A organização defende que a nova estratégia seja acompanhada por políticas capazes de ampliar o acesso da população aos medicamentos. Entre as propostas estão a redução dos preços para níveis semelhantes aos da PrEP oral, a inclusão do Brasil nos acordos de produção de genéricos, a utilização de mecanismos legais previstos no Acordo TRIPS para romper monopólios quando necessário e a descentralização da oferta da PrEP na rede pública de saúde.
Para a MSF, a incorporação da PrEP injetável representa um passo importante, mas a efetividade da medida dependerá da capacidade do sistema público de oferecer o medicamento de forma ampla, contínua e acessível às populações mais vulneráveis à infecção pelo HIV.












