A queda na cobertura vacinal registrada nos últimos anos, intensificada pela pandemia de Covid-19, ainda traz reflexos para a saúde pública em Goiás. Embora o estado tenha avançado na retomada dos índices de imunização infantil, com vacinas importantes já próximas ou acima das metas, especialistas alertam para o risco de reintrodução de doenças já controladas, como poliomielite e sarampo. Em entrevista, a subsecretária de Vigilância em Saúde, Flúvia Amorim, detalha o cenário atual da imunização no estado, os impactos da desinformação e os esforços para recuperar a confiança da população nas vacinas. Segundo ela, campanhas recentes já demonstram melhora na adesão, com destaque para o aumento expressivo na vacinação durante o Dia D contra a influenza. Flúvia também aborda os investimentos feitos na rede de frio, na logística de distribuição e em sistemas de monitoramento que permitem identificar pessoas com vacinas em atraso. Além disso, destaca a importância da vigilância epidemiológica no contexto pós-pandemia, com maior integração entre municípios, estados e redes internacionais. Flúvia Amorim ainda chama atenção para outros desafios sanitários enfrentados por Goiás, como o avanço das arboviroses, especialmente dengue e chikungunya, e a pressão constante das doenças respiratórias sobre o sistema de saúde. Apesar dos avanços, ela ressalta que o estado segue em alerta diante de possíveis novas emergências sanitárias.
Tribuna do Planalto – O estado já conseguiu atingir as metas de cobertura vacinal recomendadas em quais imunizantes?
Flúvia Amorim – Hoje nós estamos com a vacina contra a BCG, com mais de 90%, sendo que preconizada é 90%, e a vacina contra o rotavírus, estamos muito próximos, acho que nos próximos meses já conseguimos alcançar. E todas as demais que são preconizadas para crianças menores de dois anos, estamos muito próximos de atingir, todas acima de 80%.
Quais vacinas estão abaixo da meta?
A Pentavalente (imunizante que protege bebês contra cinco doenças graves em uma única aplicação: difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções por Haemophilus influenza tipo B) ainda não alcançou, a de meningite e de poliomielite não alcançaram também. Estou dando aí duas que são muito importantes. São algumas que nós estamos próximos, mas ainda não alcançamos a meta.
Como a pandemia da Covid-19 impactou a vacinação infantil em Goiás? Lembrando que houve campanhas desestimulando a vacinação, colocando em xeque a segurança de imunizantes.
Impactou muito. Na verdade, a gente vinha observando, desde 2016, uma queda gradativa. A pandemia intensificou essa hesitação sobre a vacina, piorou. O que vinha caindo devagarzinho, pós-pandemia teve uma queda brusca muito grande, então aumentou o número de pessoas com hesitação vacinal. Esse movimento, que a gente chama antivacina, tem origem principalmente no hemisfério norte, Europa e Estados Unidos. Infelizmente, isso, pós-pandemia, criou uma força maior e muitas pessoas colocaram em xeque a segurança e a qualidade dessas vacinas.
O cenário internacional, com aumento de doenças como o sarampo, preocupa o estado?
Com certeza. A gente tem porque, primeiro, o trânsito de pessoas lá fora é muito grande, e tem casos no hemisfério norte, nos Estados Unidos, Europa, casos em alguns países da América do Sul também. Se não melhorar a cobertura vacinal, considerando o trânsito, o fluxo de pessoas que é intenso, pessoas viajam o tempo inteiro, há um risco muito grande de termos a reintrodução desse vírus selvagem aqui. Por isso a importância de manter a cobertura vacinal alta. Mesmo estando circulando em países próximos, não tem o risco de chegar aqui se a gente estiver com todo mundo protegido, principalmente as crianças.
Como está sendo feito o monitoramento de casos suspeitos no estado?
O monitoramento é feito a partir da notificação de casos. Todo caso de doença que causa febre e manchas vermelhas no corpo faz parte do rol de doenças de notificação compulsória imediata, ou seja, o profissional tem que imediatamente notificar esse caso para a gente proceder toda a investigação.
A vacinação contra influenza tem uma meta alta, de 90% do público. O estado está confiante em atingir esse índice neste ano de 2026?
Eu falo que este é um ano em que estamos mais esperançosos, até pela resposta que a população deu no dia D da campanha da vacina. Foi um dos melhores dias D dos últimos cinco anos. A gente vacinava em média 54 mil pessoas. Nesse último dia D, nós vacinamos mais de 120 mil pessoas. Mostra que a população, felizmente, está tendo mais consciência e entendendo o que realmente é verdade, que a gente precisa ter medo da doença e não da vacina.
Quais foram os principais investimentos realizados pelo estado na área de imunização nos últimos anos?
Primeiro, um grande investimento que fizemos foi melhorar a qualidade da rede de frio, que é a rede que faz o armazenamento e o transporte para garantir qualidade; fizemos um grande investimento em capacitações, temos capacitações tanto online quanto presenciais; salas de vacina em todos os 246 municípios; investimos em transporte de vacina; investimos em algo que acho que é muito importante, principalmente para o gestor, que é um sistema pelo qual o município consegue verificar lá na unidade de saúde, lá na sala de vacina, que criança daquele bairro, daquela região não tomou vacina, com nome, endereço, telefone e nome da mãe, qual vacina ela não tomou e qual está atrasada. O município consegue se organizar melhor, pode ir direto na casa, se ele quiser levar a vacina e já vacinar, sabendo qual está faltando. Essa é uma ferramenta que foi criada pelo estado, disponibilizada para todos os 246 municípios.
A logística de distribuição de vacinas mudou após a pandemia?
Sofreu sim. Eu falo que são alguns os legados que a pandemia deixou. Um legado importante é justamente a melhoria da qualidade da nossa rede de frio, que é onde nós armazenamos essas vacinas e a forma na qual a gente transporta essas vacinas: com carros próprios, câmaras específicas para vacina, distribuídas para vários municípios e reestruturação de toda a rede estadual que armazena e a logística também de transporte.
Como combater a desinformação sobre vacinas?
É uma luta árdua, mas a gente tem discutido muito, primeiro tentando entender por que as pessoas não estavam querendo vacinar, esse foi o primeiro ponto. Qual era a causa ou as possíveis causas. Depois, trabalhar mais com a divulgação dessas vacinas combatendo as fakes news. A nossa equipe de comunicação tem trabalhado muito no combate às fakes news, fazendo esse rastreamento nas redes. A partir do momento que é identificado uma notícia inverídica, eles já fazem um post para replicar isso, especialmente nos sites oficiais. A questão da educação, trabalhando nas escolas, com as crianças e adolescentes, e campanhas publicitárias. Agora, por exemplo, estamos com a campanha para a gripe influenza, falando da vacinação contra a gripe. A gente começa a divulgar e pedir para as pessoas olharem sites oficiais, isso é muito importante, não compartilhar mensagens, posts que eles não sabem a origem, que não são de órgãos oficiais.
As doenças respiratórias, como a influenza, ainda pressionam o sistema de saúde. O estado está preparado para picos simultâneos?
A gente, não só o estado, mas lembrando que a rede de atenção é municipal e estadual, tem feito esse trabalho de monitoramento para conseguir anteceder algum possível aumento. Isso a gente tem feito junto com os municípios, a preparação para resposta. Temos plano de contingência já elaborado e trabalhado com os municípios para que os municípios também aprendam a monitorar e entender se está mudando o padrão e precisa se preparar. Para uma grande epidemia como Covid estaremos 100% preparados? Para algo como a Covid a gente nunca vai estar 100% preparado, mesmo porque há uma mudança desse padrão, mas temos minimamente trabalhado na preparação de profissionais de saúde, capacitando profissionais de saúde para atender adequadamente o paciente com doenças respiratórias, a fazer a notificação desses casos, principalmente casos graves, para a gente entender o que está causando essa doença respiratória importante. E preparar as unidades de saúde também, com leitos de UTI se for necessário, a depender da situação epidemiológica.
Mesmo após a pandemia da Covid-19, ainda há risco de novas ondas ou variantes preocupantes?
Não só Covid, o SARS-CoV, que é o vírus que causa a Covid-19, mas o próprio vírus influenza. Temos feito o monitoramento e esse monitoramento pós-pandemia se tornou mundial. Existe uma rede internacional pela qual são compartilhadas essas informações para saber se há algum vírus novo, algum que sofreu mutação e aumentou gravidade, principalmente. Um exemplo recente foi uma mutação do vírus influenza H3N2, principalmente no hemisfério norte, na sazonalidade do inverno deles. E essa mutação aumenta a transmissibilidade. Eles estavam chamando de um novo vírus K, mas não é um novo vírus K. Na verdade, é o vírus Influenza H3N2, que sofreu uma pequena mutação, e essa mutação está aumentando a transmissibilidade. Aumentou principalmente no hemisfério norte. Isso é algo que a gente está monitorando aqui no Brasil porque já chegou no Brasil também.
O avanço da dengue e outras arboviroses no Brasil pode ser considerado uma emergência sanitária? Como Goiás enfrenta esse cenário?
É uma doença sazonal. A gente sabe que no verão, com a chuva e o calor, aumentam os números de casos, e com as mudanças climáticas isso tende a piorar ao longo dos anos. Já tem dados científicos que comprovam isso. A preparação, assim como falei da influenza, é a mesma situação das arboviroses. Sabendo que existe uma sazonalidade, temos feito um trabalho também com plano de contingência para preparar toda a rede, seja de vigilância, a partir de laboratório, controle do vetor e assistência, para atender da melhor forma possível os pacientes que chegarem. Porque são duas frentes de trabalho, uma é de combate ao vetor para diminuir a transmissão e outra é para melhorar a assistência e evitar óbitos.
A queda na cobertura vacinal global pode trazer de volta doenças já erradicadas ou controladas para o país, em especial para o nosso território?
Na verdade, no mundo com certeza isso pode acontecer, mas vou falar do Brasil e do nosso estado. A partir do momento que diminui a cobertura vacinal, significa que há muitas pessoas que estão suscetíveis, ou seja, sem proteção. Vou dar um exemplo da poliomielite. Nós temos a erradicação da poliomielite nas Américas, no continente americano não tem caso de poliomielite, mas tem no Oriente Médio. Se a gente diminui a cobertura no Brasil e vem uma pessoa do Oriente Médio no período de transmissibilidade e entra em contato com uma criança não vacinada, podemos ter o retorno da poliomielite. É um risco altíssimo. Por isso a necessidade de manter altas coberturas. Com 90%, 95% de cobertura, esses 5% que não se vacinaram não correm risco, porque o vírus não vai ter como chegar até ele, considerando uma população com grande parte já protegida e vacinada.
O Brasil vive atualmente um risco silencioso de novas emergências sanitárias ou nossos sistemas estão preparados para identificar isso?
O mundo melhorou muito a vigilância. A gente fala da vigilância epidemiológica pós-Covid porque as pessoas passaram a entender um pouco mais da importância de se ter serviços de vigilância epidemiológica, seja no município, seja no estado, no governo federal, que sejam sensíveis a qualquer mudança, a qualquer alteração de doença conseguir captar para poder investigar e entrar com as medidas de controle. Pós-pandemia isso melhorou muito, não só em Goiás, no Brasil, mas mundo afora, mas não adianta só esse serviço. A gente precisa que todos os profissionais de saúde estejam atentos a isso. Mudou o padrão de doença, alguma doença que passou a atender em maior quantidade, uma doença que não está achando o diagnóstico. Tudo isso precisa servir de alerta para a notificação para os serviços de vigilância epidemiológica do Brasil como um todo.
Qual é hoje a maior ameaça sanitária para a população goiana?
Para o estado de Goiás tem as arboviroses, dengue e chikungunya, esse ano foi avassalador em alguns municípios e as doenças respiratórias, com certeza.
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