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Quando o entretenimento vira política: o caso Rodrigo Manga e o alerta para o consumo crítico na internet

O caso expõe um problema maior: a superficialidade do debate político em tempos de viralização.


Por Rodrigo Zani em 11/11/2025 - 08:38

Transformar a gestão pública em espetáculo pode render popularidade, mas também enfraquece a seriedade da função pública e abre espaço para o populismo digital.

O afastamento do prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), por suspeita de corrupção, acende um alerta sobre os limites entre política e espetáculo nas redes sociais. O “prefeito tiktoker”, que fez da gestão pública um palco digital, agora é investigado por supostos esquemas de fraude e desvio de recursos públicos. O caso expõe um problema maior: a superficialidade do debate político em tempos de viralização.

Antes de se tornar prefeito, Rodrigo Manga foi vereador por dois mandatos em Sorocaba. Sua trajetória pessoal — marcada pela superação da dependência química e pela atuação como missionário evangélico — o transformou em uma figura carismática, próxima das camadas populares e fortemente identificada com o discurso da “mudança pela fé”.

Formado em marketing, Manga sempre soube vender bem sua imagem. E foi nas redes sociais que encontrou o terreno ideal para ampliar seu alcance político. Como poucos, ele entendeu que vídeos curtos, apelos emocionais e uma linguagem leve e descontraída rendiam mais engajamento do que qualquer discussão técnica sobre orçamento, transparência ou políticas públicas.

Durante o mandato, Manga se transformou em um showman digital. Todos os dias, publicava vídeos dançando, pregando, reagindo a situações do cotidiano — sempre com muito carisma e pouca substância política. O conteúdo, porém, viralizava rapidamente, consolidando sua imagem de “prefeito popular” e gerando milhões de visualizações.

O problema é que o algoritmo das redes sociais premia o entretenimento, não a seriedade. O resultado é um fenômeno político que confunde engajamento com eficiência, e que transforma a política em espetáculo. A gestão pública, aos poucos, perde espaço para a performance.

Na semana passada, a Justiça determinou o afastamento de Rodrigo Manga por 180 dias, após uma operação da Polícia Federal investigar um suposto esquema de fraudes em contratos emergenciais na área da saúde de Sorocaba. A operação, batizada de “Cópia e Cola”, apura irregularidades em licitações e contratos com empresas terceirizadas, com suspeita de superfaturamento e favorecimento político.

De acordo com as investigações, o esquema pode ter causado prejuízos milionários aos cofres públicos. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão, prisões preventivas e bloqueio de bens. Manga, por sua vez, gravou vídeos em suas redes sociais afirmando ser vítima de perseguição política e dizendo que “Deus o colocará novamente no lugar que o povo o escolheu”.

Nenhuma explicação técnica sobre o caso foi apresentada até o momento.

O caso de Sorocaba expõe um padrão de comportamento político que se repete em várias cidades do Brasil: a ascensão de líderes que tratam a política como produto, não como serviço público.

São figuras que dominam as linguagens digitais, exploram algoritmos e utilizam a lógica do engajamento para construir capital político, ainda que sem conteúdo ou compromisso institucional.

No ambiente das redes, o carisma vale mais que a coerência; a dancinha rende mais que o debate; a frase de efeito supera o plano de governo. A política, nesse formato, perde densidade e vira entretenimento.

E o eleitor, muitas vezes sem perceber, passa a consumir candidatos como quem consome influenciadores.

O afastamento de Manga não é apenas um caso judicial — é um alerta democrático. Mostra como as redes sociais moldam comportamentos políticos e interferem diretamente na qualidade da democracia.

As Big Techs têm papel crucial nesse processo: os algoritmos priorizam o sensacional, o polêmico, o emocional — e empurram para o esquecimento discussões complexas sobre políticas públicas, orçamento ou fiscalização.

Mas a responsabilidade também é nossa. Como cidadãos, precisamos consumir informação com senso crítico, questionar o que vemos, checar fontes, diferenciar discurso de gestão.

A democracia não sobrevive de “likes”, mas de instituições sólidas, transparência e compromisso público.

Rodrigo Manga ainda terá direito à ampla defesa e ao devido processo legal — princípios essenciais do Estado Democrático de Direito. Mas o episódio já deixa uma lição: política não é entretenimento.

Transformar a gestão pública em espetáculo pode render popularidade, mas também enfraquece a seriedade da função pública e abre espaço para o populismo digital.

Em tempos em que a política cabe em 15 segundos de vídeo, precisamos lembrar que governar é mais do que performar. É planejar, executar, prestar contas. O caso Manga é um espelho do nosso tempo — e um lembrete urgente de que democracia se faz com responsabilidade, não com curtidas.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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