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Termópilas, Frozen e Brasília

Talvez por isso os nomes importem tanto. Frozen é fantasia assumida. Termópilas, não


Luciano Cardoso Por Luciano Cardoso em 23/01/2026 - 08:10

Termópilas
A Batalha de Termópilas

Há nomes que explicam mais do que longos relatórios técnicos. Outros, ao contrário, denunciam mais do que pretendem esconder. No universo recente dos fundos ligados ao Banco Master, o batismo de alguns veículos financeiros tornou-se um curioso exercício de imaginação — ora infantil, ora épico, ora involuntariamente revelador.

De um lado, surgem referências ao reino gelado de Frozen, da Disney: personagens simpáticos, histórias de redenção e canções que prometem libertação emocional ao som de “Let it go”. Do outro, um nome que salta aos olhos dos mais atentos: Termópilas.

A primeira referência é universal. Termópilas, na Antiguidade, foi o estreito desfiladeiro onde poucos gregos enfrentaram o imenso exército persa. Perderam a batalha, mas venceram a história. Ficaram como símbolo de resistência, honra e sacrifício consciente em nome de algo maior. Um mito fundador da ideia de civilização que ainda inspira discursos sobre liberdade, limites do poder e coragem cívica.

A segunda referência é menos conhecida, mas não menos nobre. Nas Arcadas do Largo de São Francisco — berço histórico da elite jurídica brasileira — Termópilas era o nome dado a uma passagem improvisada, quase clandestina, utilizada por estudantes durante o regime militar para driblar portões fechados e vigilâncias excessivas. Um corredor estreito, um pátio de iluminação, um salto de janela. Nada de lanças ou escudos, apenas astúcia, irreverência e resistência silenciosa. Uma Termópilas tropical, jurídica, acadêmica e indisciplinada, nascida sob as sombras do autoritarismo e ligada, direta ou indiretamente, às arcadas que formaram gerações inteiras de juristas.

Essas duas Termópilas dialogam entre si. Ambas evocam limites, coragem e a recusa em aceitar o arbítrio como destino inevitável.

A terceira, entretanto, causa estranhamento.

Quando o nome Termópilas passa a orbitar o noticiário envolvendo o Banco Master, investigações policiais, desconfortos institucionais e decisões que colocam o Supremo Tribunal Federal sob holofotes pouco elogiosos, o símbolo sofre um desvio semântico preocupante.

Não se trata mais de resistência heroica, mas de uma travessia nebulosa entre finanças, relações institucionais e decisões que geram ruído público. As repercussões envolvendo ministros como Dias Toffoli e Alexandre de Moraes — sempre no plano das aparências, conexões reveladas pela imprensa e desconfortos narrados nos bastidores — fazem com que essa nova “Termópilas” pareça menos um desfiladeiro de honra e mais um atalho simbólico que ninguém sabe exatamente onde começa, onde termina ou quem realmente o atravessa.

A ironia é quase didática: enquanto as Termópilas clássica e acadêmica remetem a limites éticos claros — aqui não se passa, aqui se resiste —, a Termópilas financeira parece operar na lógica inversa: aqui tudo passa, desde que envolto em formalidades, pareceres e uma névoa institucional suficientemente densa.
No meio disso tudo, Brasília assiste. O STF se explica. A Procuradoria-Geral da República avalia. O Banco Central do Brasil observa. E a opinião pública, cada vez menos disposta a aceitar narrativas heroicas sem coerência prática, compara.

Talvez por isso os nomes importem tanto. Frozen é fantasia assumida. Termópilas, não. É palavra grande demais, história densa demais, símbolo sério demais para ser associada a episódios que, no mínimo, expõem o sistema a sucessivos constrangimentos institucionais.

Se a lambança ainda renderá novos capítulos — e tudo indica que sim —, resta torcer para que, ao menos no campo simbólico, as verdadeiras Termópilas continuem lembrando o que deveriam lembrar: que há passagens que só fazem sentido quando defendidas com ética, coragem e limites claros. O resto é apenas trilha sonora infantil para um enredo que insiste em se levar a sério.

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Luciano Cardoso

É advogado inscrito na OAB/GO. Membro do Instituto Goiano do Direito do Trabalho. Membro e Conselheiro Fiscal da Associação Goiana da Advocacia Trabalhista - AGATRA. Membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/GO. Chefe do Departamento Jurídico da Companhia de Urbanização de Goiânia - COMURG.
E-mail: [email protected].

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