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O Agente Secreto dialoga sobre gentrificação do cinema, da identidade e da memória de um país inteiro

Nova produção de Kléber Mendonça Filho faz mais que um exercício de gênero, prova sua maturidade narrativa


Danilo Santana Por Danilo Santana em 07/11/2025 - 13:58

Wagner Moura é o protagonista de novo filme de Kléber Mendonça Filho

Fruto do processo de pesquisa de Retratos Fantasmas (2023), documentário que aborda a história do centro de Recife a partir das salas de cinema, Kléber Mendonça Filho cria aqui um thriller policial com suspense, humor e um verdadeiro ode ao cinema de gênero.

Assim como em tudo o que Kléber Mendonça Filho fez — e provavelmente fará — desde O Som ao Redor (2012), é impossível desassociar o teor político que suas obras carregam. Isso para o bem e para o mal. Afinal, é possível que o filme não chegue até algumas pessoas por puro preconceito.

Entretanto, entre quem critica, a principal acusação de demérito é de que O Agente Secreto peca por “excesso de ideias” — o que, no mínimo, é questionável. Existe limite para a quantidade de ideias que um filme pode ter? Vejo eu que esse seria um problema apenas se o longa tivesse dificuldade em realizar malabarismo profissional e interessante com tudo o que se propõe a discutir — o que não é o caso aqui.

Onde assistir a O Agente Secreto, longa de Kleber Mendonça Filho com Wagner Moura? - Rolling Stone BrasilParte do elenco de O Agente Secreto

Tudo o que o que novo longa-metragem de Kléber Mendonça Filme se propõe a ser, ele é desde a primeira cena.

A história se passa em 1977 e acompanha Marcelo (Wagner Moura). Na abertura, vemos um homem misterioso que viaja há três dias rumo a Recife e, em sua última parada para abastecer, se depara com um corpo estendido no chão, coberto por papelão.

Durante o diálogo com o frentista (interpretado pelo ator paraibano Joálisson Cunha), Marcelo descobre que o homem havia sido assassinado em uma tentativa de assalto e que a polícia fora comunicada há mais de 24 horas. Prestes a pegar a estrada novamente, Marcelo é surpreendido por uma viatura da Polícia Rodoviária Federal.

“Finalmente”, diz o frentista. Ele imagina que os policiais tenham chegado para investigar o corpo, mas, na verdade, estão ali para abordar Marcelo. Depois de procurar por motivos e não encontrar nada, nem mesmo uma chance de extorsão, a decepção do policial é visível. Fica ali caracterizada pela primeira o que é prioridade para o Estado.

“Papai, estou começando a esquecer mamãe”

O Agente Secreto dialoga, a priori, sobre memória. Este é o tema principal. Ao colocar uma lupa no filme, sem muita dificuldade, é possível ler isso sob diferentes óticas – a importância da preservação da memória daqueles que lutaram contra a ditadura empresarial militar, além de dialogar sobre como o Brasil trata seu próprio passado e a dificuldade do país em manter sua identidade coletiva.

Assim como em Retratos Fantasmas, Kléber também torna o próprio cinema parte da história – afinal o país que destrói seus espaços de cultura é o mesmo que apaga seus mortos, suas lutas, suas vozes e seus artistas. No filme, a memória não é tema abstrato, é patrimônio em risco, ameaçado pela mesma negligência que ignora corpos, histórias e salas de exibição que um dia foram templos da imaginação.

Os segredos por trás da beleza histórica de 'O Agente Secreto' | VEJA
Tânia Mara como Sebastiana

Tânia Mara e atuações

Grata surpresa em Bacurau, a agora atriz Tânia Mara rouba a cena entre um elenco recheado de outros talentos. Kléber confessou em entrevistas anteriores que durante o processo de produção do roteiro, passou a escrever Sebastiana com Tânia Mara em mente. A atriz parece interpretar ela própria, com uma naturalidade e química muito agradáveis em tela.

Ao longo do filme, é possível perceber nos olhos de Wagner Moura o quanto ele está satisfeito e impressionado com a desenvoltura da nova colega de cena. Tânia é responsável pela maior parte das risadas e alívios que o filme cede ao longo dos seus mais de 150 minutos.

Além disso, o elenco também reflete e ajuda a expandir o diálogo sobre a complexidade identitária no Brasil. Ao utilizar atores de diferentes origens, Kléber consegue com muita naturalidade, expor preconceitos, conflitos e diferentes visões de mundo sem necessariamente apelar para diálogos expositivos, o que seria uma saída fácil e preguiçosa.

Esse processo fica evidente em vários momentos do filme. Um deles, durante uma reunião na casa de Sebastiana, a personagem angolana de Thereza Vitória diz que não vai entrar em nenhum avião com bandeira portuguesa, além de criticar a própria recepção que teve pelo povo recifense. Em outro momento, quando o empresário Ghirotti conhece pesquisadores estrangeiros e estranha um homem com traços asiáticos se apresentar como britânico.

Em outro exemplo, o matador interpretado por Gabriel Leone decide substituir seu nome brasileiro por um apelido americanizado, Bob. E para citar mais um, é interessante notar também o personagem de Udo Kier, um alemão que encontrou refugio no Brasil após a guerra, sobrevivendo como alfaiate em um país onde ele é obrigado a lidar com pessoas de diferentes origens.

São vários os exemplos e a riqueza do casting permite que façamos a leitura sobre um Brasil que lida constantemente com muitas origens.

Cine Cultura estreia “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça - Agência Cora Coralina de Notícias
Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura no set de “O Agente Secreto”

“Um banho de indústria, ele disse isso”

Recentemente, a atriz Carol Garcia viralizou nas redes sociais ao defender com unhas e dentes sua nova série, Tremembé, que conta a história de convivência de detentos famosos na prisão de segurança máxima localizada no interior de São Paulo, tida como a prisão de celebridades do crime. Na declaração, Carol diz que os brasileiros precisam passar a apreciar mais as produções nacionais e dar valor ao que é feito aqui.

Sem entrar no mérito da série, que tem vários problemas, a defesa serve muito para cá. Temos aqui mais um exemplo de como o Brasil é capaz de criar obras incríveis mesmo com toda dificuldade que o audiovisual do país enfrenta. É notável como essa fama de que o cinema brasileiro não presta ainda causa incomodo e desconfiança tanto em quem produz, tanto em quem vai assistir.

Antes de tudo, é preciso notar que apesar de representar todo um país, O Agente Secreto é, sobretudo, cinema recifense. Viver em um país de proporções continentais nos permite perceber e desenvolver diferentes movimentos cinematográficos, um ao lado do outro, fonte de uma riqueza inesgotável de histórias.

Então, ao criticar a intervenção das grandes industrias nas universidades, no que é produzido pelo nosso país, Kléber está também falando sobre esse processo de gentrificação cultural que nos acomete. Não é necessário apelarmos para o que foi feito em 2 Coelhos, há mais de dez anos atrás, e mimicar Hollywood. É possível contarmos nossas histórias, a nossa maneira, com o léxico do povo, sem necessariamente apelarmos para um banho um de indústria, como muitos acham que deveríamos passar.

“Meu tempo em Recife acabou”

Ao longo do filme, me lembrei diversas vezes de uma música composta por Aldir Blanc e João Bosco, duas figuras proeminentes da MPB, chamada “De Frente para o Crime“. A letra narra, com um certo tom de sarcasmo, a forma como uma morte era comunicada em um jornal.

Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de um rosto, uma foto de um gol” diz a primeira linha da canção, que ressoou em mim em diversos momentos do filme, principalmente no desfecho do tiroteio, quando o barbeiro cobre o corpo de um dos personagens com um jornal.

E então chegamos ao momento final, por uns classificado como anticlimático, mas que claramente foi feito de forma proposital. Causa estranheza uma vida inteira, toda uma coleção de memórias, relações e vivências se resumir a uma nota no jornal. Um apagamento tão eficaz que sequer nossos familiares são capazes de nos lembrar. A vida segue, o Brasil segue.

Ainda resta, em subtexto, a dúvida se KMF irá abranger suas histórias para novos horizontes. Estaria o diretor se despedindo de Recife para explorar novos territórios? A ver. O que é possível concluir é que na biblioteca de filmes nacionais temos uma nova e competente obra que não apenas restaura a importância de lembrar o passado, mas nos dá a possibilidade de enxergar um futuro brilhante neste novo capítulo da cinematografia brasileira.

Danilo Santana

Jornalista e produtor audiovisual baseado em São Paulo. Escreve sobre cultura e esporte.

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