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Camisas de clubes brasileiros custam em média 25% de um salário mínimo contra 3% em países com ligas mais competitivas

Apesar de clubes como Flamengo, Palmeiras e São Paulo anunciarem modelos mais baratos, o torcedor ainda precisa desembolsar uma média de R$ 411,00 para vestir a camisa do seu clube do coração


Danilo Santana Por Danilo Santana em 17/04/2026 - 17:11

Varal com camisas na Rua Palestra Itália, nas intermediações do estádio palmeirense (André Porto/UOL)

Ao andar pelas ruas que levam aos portões de entrada dos estádios brasileiros, é comum encontrar as mais tradicionais barracas de lanches, assim como varais estendidos entre postes que sustentam camisas paralelas do clube da casa.

Entre as opções disponíveis, é possível encontrar os modelos mais simples, sem a robustez dos tecidos dry-fit, ou até mesmo com o escudo apenas impresso por cima do tecido – assim como é possível encontrar também modelos que nem sequer tem versões oficiais. Esse comércio ao ar livre é parte do folclore do ambiente de estádio brasileiro, uma experiência no mínimo interessante.

Já dentro do estádio, é possível notar que a exceção é estar sem o uniforme do clube do coração. Sejam versões mais antigas, piratas, ou os privilegiados que andam com uniformes recém lançados, uma coisa é certa: o torcedor brasileiro faz questão de vestir a camisa do seu time. Mas quanto isso custa ao bolso do torcedor?

Recentemente, o empreendedor e influenciador do meio fitness Tiago Ribeiro de Lima, conhecido amplamente como Toguro, passou a veicular vídeos com o bilionário e dono do Grupo CIMED João Adibe.

Carinhosamente apelidado de Tio Patinhas por Toguro, Adibe abriu as portas da CIMED para que Toguro trouxesse sua expertise em viralizar conteúdos e marcas na internet para dentro de sua empresa. Os vídeos atingiram milhões de pessoas, a ponto de que outras empresas passassem a convocar Toguro para fazer o mesmo com elas.

Muitas das vezes sob o título de patrocinador ou até de vice-presidente, nas últimas semanas, essa prática chegou a alguns dos clubes relevantes do Brasil como Bahia, Palmeiras, Mirassol, Portuguesa e mais recentemente a Ponte Preta.

Em absolutamente toda oportunidade que tem, ao saber quanto cada clube cobra por uma camisa, Toguro questiona “Um torcedor mais humilde consegue pagar uma camisa do seu clube? Não seria melhor democratizar?” Em absolutamente todas as situações, a resposta é geralmente a mesma: É possível comprar um boné ou uma camisa de treino.

Entretanto, caso o torcedor queira comprar uma camisa oficial do seu clube do coração, terá que desembolsar em média R$ 411,00, valor que representa cerca de 25% de um salário mínimo corrente (R$ 1.621,00 em 2026).

Quanto custa uma camisa de time no Brasil

Apesar de aparentemente parecer uma futilidade, no contexto brasileiro, as camisas de time são usadas para demonstrar orgulho ou até mesmo em forma de protesto. Após dérbis, é comum encontrar tanto torcedores do time que saiu vitorioso em um clássico como os de torcedores derrotados exibindo suas camisas durante o deslocamento urbano.

Entretanto, isso não significa que todos usem versões oficiais dos uniformes, sendo muitas das vezes obrigados a comprarem produtos contrafeitos por conta do alto valor dos produtos oficiais.

Em uma breve pesquisa para entender como estão os preços das camisas dos clubes mais bem colocados do Brasileirão Série A nesta penúltima semana de abril. Filtramos camisas da temporada atual, nas lojas oficiais dos clubes. A média de valor é de R$ 411,00, sendo o Bahia o clube com a opção “mais em conta.”

Palmeiras: R$ 429,00 | Puma

Flamengo: R$ 449,00 | Adidas

São Paulo: R$ 379,00 | New Balance

Fluminense: R$ 429,00 | Puma

Bahia: R$ 369,00 | Puma

Quanto os torcedores de outros países pagam

Para traçar um paralelo, essa reportagem decidiu levantar o valor das camisas dos principais clubes da liga mais valiosa e competitiva do mundo, a Premier League, da Inglaterra. A base de comparação é a mesma: Quantos por cento de um salário mínimo uma camisa de futebol representa para o torcedor inglês?

Ao analisar os valores dos clubes do Big Six – grupo composto pelos seis maiores clubes da Inglaterra com Arsenal, Chelsea, Manchester United, Manchester City, Liverpool e Tottenham Hotspur -, a média de valor gira em torno de £ 85,00.

O salário mínimo na capital inglesa é de £ 12,71 por hora, segundo informações oficiais do site do Reino Unido (National Minimum Wage and National Living Wage rates). O trabalhador londrino trabalha cerca de 40 horas por semana, o que dá £ 508,40 por semana e £ 2033,60 por mês.

Sem considerar custo de vida elevado em Londres, em uma comparação puramente baseada em relação ao salário mínimo de cada país, o torcedor inglês gastaria apenas 3% dos seus recebimentos para comprar uma camisa do seu clube do coração.

Em falta nas lojas, uniforme da seleção nunca esteve tão na moda | VEJA
(Renato S. Cerqueira/Futura Press)

O fenômeno das camisas tailandesas

Uma alternativa aos torcedores mais humildes ou àqueles que se recusam a pagar um valor exorbitante em uma camisa de futebol, é o que o mercado paralelo chama de “camisa tailandesa.”

Popular entre os fãs de futebol, as camisas tailandesas ganharam espaço entre torcedores por oferecerem versões não oficiais de uniformes de clubes e seleções com alta fidelidade visual. Produzidas, em sua maioria, em fábricas localizadas na Tailândia, no Vietnã e em outros países asiáticos, essas peças reproduzem cores, escudos e detalhes das camisas originais, mas são comercializadas por uma fração muito menor do preço praticado pelas marcas oficiais. 

Segundo alguns fornecedores, as camisas até são feitas com materiais derivados do mesmo fornecedor de grandes marcas como Nike, New Balance, Adidas e Puma. Apesar de não ter sido possível confirmar essa informação, é verdade que a diferença chega a ser imperceptível a olhos destreinados, o que fez muitos compradores migrarem para essa opção.

Com o custo médio do produto oficial girando em torno de R$ 411, o valor médio de R$ 120 a R$ 150 se torna muito atrativo. É possível também encontrar as camisas tailandesas categorizadas como “réplica 1 por 1”, sendo esse tipo a mais fiel entre as disponíveis no mercado.

Hoje em dia só compra oficial quem realmente pode e, mesmo assim, se a pessoa se importa realmente em colecionar, ter no seu acervo” compartilha Daniel Vicente, paulistano de 29 anos. “Eu tenho como regra comprar originais apenas as do meu time, já abri mão de comprar originais de outros clubes. Se você comprar três a quatro camisas por ano, é o valor de uma passagem para algum destino turístico legal” termina o torcedor.

A venda é, claro, proibida por se tratar de um produto falsificado, por mais similar que ele seja ao original. Por outro lado, este tipo de réplica fiel é amplamente comercializada no Brasil, chegando a gerar até clubes de assinatura de caixas misteriosas, onde o torcedor paga um valor e recebe em casa, todo mês, uma ou mais camisas surpresas.

Flamengo lança camisa com preço reduzido ao torcedor; veja valores
Flamengo lança camisa a R$ 99,00 em parceria com a Shopee. Clube mira nos torcedores mais humildes e não descaracteriza uniforme. (Imagem: Divulgação CR Flamengo)

Alternativas saudáveis a pirataria

Com o domínio das camisas tailandesas, uma onda de reformulações no catálogo de vestuário de diversos times parece ter começado a ganhar força. Recentemente, o Flamengo anunciou recentemente uma parceria com a Shopee, por onde comercializa exclusivamente um modelo mais em conta do seu uniforme. O preço deve girar em torno de R$ 99, podendo chegar a R$ 93 com descontos da plataforma.

O São Paulo Futebol Clube também reagiu. Em 2023, anunciou a criação de uma marca própria de vestuário, a SAO. Com opções de vestuário casual, a marca também conta com camisas mais simples e a preços mais acessíveis, comercializadas em torno de R$ 100,00.

Além disso, a tendência no país é de que camisas de temporadas anteriores sejam comercializadas por menos da metade do preço cheio, cerca de R$ 150,00, valor que ainda representa quase 10% de um salário mínimo no Brasil. Entretanto, é importante entender que o torcedor gostaria de usar a camisa que seu ídolo em campo usa e não um produto, muitas das vezes, descaracterizado.

É difícil imaginar que veremos esse cenário mudar a curto prazo e notar uma redução de 50 a 60% nos preços das versões oficiais da temporada no mercado. A paixão sempre falará mais alto, seja para o endividamento por parte dos torcedores para adquirirem as versões atualizadas e oficiais, seja pelos clubes que continuarão a ter prejuízos com a pirataria.

Danilo Santana

Jornalista e produtor audiovisual baseado em São Paulo. Escreve sobre cultura e esporte.

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