Candidato ao governo estadual afirma que buscará cooperação internacional para enfrentar crise de segurança pública no estado
O pré-candidato ao Governo do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), afirmou que pretende buscar cooperação com Israel e com o Mossad, serviço de inteligência israelense, caso seja eleito. A declaração foi feita durante uma agenda política e repercutiu por defender a aproximação com um dos mais conhecidos órgãos de inteligência do mundo.
Segundo Ciro, a experiência israelense no combate ao terrorismo e na produção de inteligência poderia contribuir para enfrentar o avanço das facções criminosas no estado. “Vou procurar Israel… mandei gente treinar lá. E me dei muito bem”, declarou o pedetista em entrevista à revista Veja. O ex-ministro sustentou que o Ceará vive uma situação extraordinária e que, por isso, seria necessário recorrer a modelos internacionais de segurança.
A declaração ocorre em um momento em que a violência voltou ao centro do debate político cearense. O estado registra há anos conflitos entre organizações criminosas, homicídios e ataques a equipamentos públicos, temas que devem ocupar posição de destaque nas eleições de 2026. O ex-governador governou o estado de 1991 a 1994 e é o atual líder nas pesquisas para o cargo, com 47% das intenções de voto contra 32% do atual governador Elmano de Freitas (PT), segundo pesquisa Datafolha de março.
O que é o Mossad
Fundado em 1949, o Mossad é o serviço de inteligência externa de Israel. A agência é responsável por operações de espionagem, contraterrorismo, contrainteligência e coleta de informações estratégicas para o Estado israelense. Sua atuação, entretanto, está voltada principalmente para questões de segurança nacional e operações internacionais — atribuições bastante diferentes daquelas exercidas pelas polícias estaduais brasileiras no enfrentamento da criminalidade urbana.
Especialistas apontam diferenças
Pesquisadores da área de segurança pública observam que experiências internacionais podem contribuir para o intercâmbio de técnicas de inteligência e investigação, mas destacam que a realidade do Ceará apresenta características próprias. O enfrentamento às facções criminosas depende de integração entre polícias, fortalecimento da inteligência financeira, controle do sistema prisional, combate ao tráfico de armas e drogas e investimentos permanentes em prevenção da violência.
Qualquer cooperação formal entre instituições brasileiras e órgãos estrangeiros depende da União, por envolver relações internacionais e acordos de cooperação entre Estados.
Mudança no discurso político
A defesa de uma aproximação com Israel simboliza mudanças na trajetória política de Ciro Gomes. Nos últimos meses, o sempre candidato intensificou sua aproximação com setores bolsonaristas e lideranças evangélicas, adotando posições que contrastam com boa parte do discurso que marcou suas campanhas presidenciais anteriores. Em diversas ocasiões, Ciro passou a concentrar críticas ao governo do presidente Lula, aproximou-se de parlamentares conservadores e ampliou o diálogo com segmentos tradicionalmente alinhados à direita brasileira.
Israel ocupa posição de destaque no imaginário de parcelas do eleitorado conservador e evangélico, enquanto o serviço de inteligência israelense frequentemente é apresentado como exemplo de eficiência em discursos ligados ao endurecimento das políticas de segurança.
O desafio da segurança pública
A fala de Ciro reforça que a segurança pública tende a ocupar espaço central na disputa eleitoral cearense. O desafio, entretanto, vai além da adoção de modelos estrangeiros. O Ceará enfrenta problemas estruturais relacionados à expansão das facções criminosas, às desigualdades sociais, ao sistema prisional e à capacidade de investigação do Estado.
Especialistas lembram que resultados duradouros dependem principalmente do fortalecimento das instituições brasileiras, do investimento em inteligência integrada e da continuidade das políticas públicas de prevenção e combate ao crime organizado.
Na contramão do mundo
A defesa da parceria com Israel, no entanto, contrasta com a crescente rejeição internacional ao país em razão de sua conduta em conflitos recentes. O Tribunal Penal Internacional (TPI) investiga Israel por possíveis crimes de guerra na Faixa de Gaza, onde a ofensiva já matou mais de 50 mil palestinos, segundo dados do Ministério da Saúde local, e deslocou cerca de 2 milhões de pessoas.
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) documentou a morte de mais de 210 profissionais da imprensa em Gaza desde outubro de 2023, sendo a maioria palestina, em ataques que organizações de defesa da liberdade de expressão classificam como deliberados. Além disso, a ofensiva israelense se estendeu ao Líbano, com bombardeios que também causaram deslocamentos em massa.
A imagem de Israel no cenário global atingiu seu pior nível histórico: pesquisa apontou que o país tem saldo negativo de aprovação de 52 pontos percentuais, sendo considerado a nação mais impopular do mundo, reflexo da percepção internacional sobre suas ações nos territórios ocupados e na guerra em Gaza.
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