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Fake news e discursos de ódio: velhas práticas, novo alcance

Escritor e pesquisador Ely Paiva identifica, em diferentes momentos da história republicana, mecanismos semelhantes aos observados na política contemporânea


Carla Borges Por Carla Borges em 27/09/2026 - 15:15

Movimento liderado por Antônio Conselheiro, em Canudos (BA), foi alvo de fake news
Movimento liderado por Antônio Conselheiro, em Canudos (BA), foi alvo de fake news (Foto: Arquivo histórico)

Fake news e os discursos de ódio, quem diria, fazem parte do cenário político brasileiro há mais de um século, nem sempre de forma dissimulada, como pode parecer à primeira vista. A diferença é que, atualmente, a tecnologia ampliou a velocidade, o alcance e a capacidade de segmentação dessas práticas. É o que revela o trabalho do escritor, professor universitário e pesquisador Ely Carneiro de Paiva, que identifica, em diferentes momentos da história republicana, mecanismos semelhantes aos observados na política contemporânea. Ele mostra como essas questões estão presentes desde as origens da República no livro “1897”.

A desinformação não nasceu com as redes sociais. No final do século 19, jornais partidários, boatos, panfletos e discursos públicos já eram utilizados para construir versões dos acontecimentos, atacar adversários e alimentar o medo. Na análise de Paiva, o período entre 1893 e 1897 é um exemplo de como a circulação de informações falsas ou distorcidas poderia agravar crises políticas em uma República ainda recente e institucionalmente frágil.

Um dos episódios mais emblemáticos está relacionado à Guerra de Canudos. Segundo o pesquisador, um importante jornal do Rio de Janeiro ajudou a disseminar a ideia de que o movimento liderado por Antônio Conselheiro fazia parte de uma conspiração monarquista. A suspeita não correspondia à realidade, mas contribuiu para a construção de uma ameaça política que justificaria a repressão. Naquele ambiente de tensão, jornais monarquistas foram destruídos, um editor foi assassinado e o conflito se ampliou até culminar no atentado contra o presidente Prudente de Morais.

O episódio revela um mecanismo que, de acordo com Paiva, atravessa a história brasileira: a transformação do adversário político em uma ameaça à própria existência da República, da pátria ou da ordem social. A partir dessa lógica, o oponente deixa de ser tratado como alguém com posições divergentes e passa a ser apresentado como inimigo que precisa ser neutralizado.

Polarização

A polarização também marcou o período entre 1930 e 1945, quando integralistas e comunistas disputavam espaço em meio à influência de ideologias internacionais. Com a implantação do Estado Novo, em 1937, o governo fechou o sistema político e impôs censura à imprensa. A disputa aberta foi substituída pelo controle estatal da informação, sem que desaparecessem os conflitos ideológicos e a desqualificação dos adversários.

Na fase democrática iniciada em 1945, a oposição entre a União Democrática Nacional (UDN) e o getulismo voltou a ocupar o centro do debate político. Entre 1945 e 1954, jornais participaram ativamente da disputa entre getulistas e antigetulistas. A crise que culminou no suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, foi precedida por uma intensa campanha política e jornalística. No ano seguinte, a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart também foi contestada, em um cenário de instabilidade institucional.

Entre 1961 e 1964, a polarização assumiu caráter ainda mais ideológico. As discussões sobre reformas de base, reforma agrária, nacionalismo econômico e comunismo mobilizaram partidos, organizações civis e setores das Forças Armadas. A Guerra Fria oferecia o ambiente internacional para a interpretação de conflitos internos como parte de uma disputa global entre modelos políticos. No Rio de Janeiro, a oposição entre o PTB e a UDN expressava essa radicalização.

Para Paiva, os mecanismos de comunicação mudaram, mas algumas estratégias permaneceram. O adversário continua sendo apresentado como uma ameaça existencial, boatos são divulgados como fatos, teorias conspiratórias substituem a apuração, e instituições são questionadas quando suas decisões contrariam determinado grupo político. Também permanece o uso de uma linguagem moral, que divide a sociedade entre “patriotas” e “traidores”.

A diferença contemporânea está na estrutura de circulação da informação. Em 1897, a combinação envolvia jornais, telégrafo, boatos, comícios e panfletos. Entre 1954 e 1964, jornais, rádio, televisão ainda em expansão e organizações políticas ampliaram a disputa. No século 21, redes sociais, aplicativos de mensagens, vídeos e algoritmos permitem que qualquer pessoa produza e distribua conteúdo para milhares ou milhões de usuários.

Esse novo ambiente não apenas acelera a circulação das mensagens. Ele também favorece a segmentação do público e a formação de comunidades que compartilham as mesmas crenças. Conteúdos capazes de provocar medo, indignação ou revolta podem alcançar maior visibilidade, enquanto informações que contrariam convicções previamente estabelecidas tendem a ser rejeitadas.

Ely Paiva: "Mecanismos de comunicação mudaram, mas algumas estratégias permaneceram"
Ely Paiva: “Mecanismos de comunicação mudaram, mas algumas estratégias permaneceram”

O pesquisador ressalta, porém, que não se deve ignorar a diferença entre os períodos históricos. A República de 1897 era recém-criada e socialmente pouco inclusiva. Mulheres e analfabetos não participavam das eleições, e as Forças Armadas mantinham o peso de uma instituição fundadora do regime. A Constituição de 1988, por sua vez, estabeleceu um sistema democrático com sufrágio amplo e instituições que não existiam ou não funcionavam da mesma maneira no passado, como o Ministério Público, a Justiça Eleitoral e o Sistema Único de Saúde.

Também mudou a relação da sociedade com a produção de informação. Antes, a população dependia de intermediários, como jornais, partidos e lideranças políticas. Hoje, o cidadão pode produzir, editar e compartilhar conteúdos diretamente. Essa ampliação da participação, contudo, não garante a qualidade da informação. Sem mecanismos de verificação, a liberdade de divulgação pode ser usada para espalhar falsidades e estimular ataques contra pessoas, grupos e instituições.

Na avaliação de Paiva, o discurso de ódio não se resume ao insulto. Seu efeito mais grave ocorre quando o adversário é desumanizado e perde a legitimidade de participar do debate público. Ao ser apresentado como inimigo da pátria ou ameaça à sobrevivência do regime, ele deixa de ser visto como um concorrente legítimo. Essa construção pode abrir espaço para a defesa de medidas extraordinárias, inclusive contra as regras democráticas.

 

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