O vereador Cabo Senna (PRD), autor do requerimento que propõe a criação da Comissão Especial de Investigação (CEI) sobre a limpeza urbana de Goiânia, afirmou nesta terça-feira (29), em entrevista exclusiva à Tribuna do Planalto, que a comissão será instalada com ou sem o aval do prefeito Sandro Mabel (UB). “Mabel querendo ou não, a CEI vai acontecer”, declarou.
Senna rejeita a retirada de assinaturas do documento e garante que, até o momento, a instalação da comissão vai acontecer independentemente de pressão política do Paço. “Não vamos ser abalados com ligação ou reunião no Paço. A Câmara é um poder independente”.
Segundo o vereador, o prefeito nem interlocutores do Paço conversaram com ele sobre a comissão. Ele afirma que não existe viés político na investigação e que a população tem cobrado os vereadores por melhorias no serviço de limpeza urbana.
“Se nós pagamos mais de R$ 500 milhões para a limpeza da cidade e isso não está ocorrendo, nós, como fiscais desses contratos, somos obrigados a agir para garantir que a população receba o que foi prometido”, argumentou Senna. O contrato com a Limpa Gyn teve aditivo de R$ 9 milhões assinado por Mabel e que será tratado na CEI.
Mudou de ideia
O vereador Cabo Senna também questiona a mudança de postura do prefeito Sandro Mabel sobre o tema. “Na campanha, ele bateu firme na empresa. Agora, parece ter mudado de ideia. Está envolvido com a empresa ou não? Isso gera dúvida”, cutucou.
Segundo parlamentares que assinaram o requerimento, ouvidos pela reportagem em reserva, o clima geral é de insatisfação com a Prefeitura. Enquanto alguns apontam falta de diálogo e abertura de espaços na gestão, outros atribuem o distanciamento a falhas no atendimento por parte dos auxiliares do Executivo.
A secretária de Governo Sabrina Garcez tem tentado construir a retirada de assinaturas e feito declarações para o diálogo. A Tribuna do Planalto mostrou que ela falou em uma rádio da capital que iria intensificar as negociações com parlamentares da base. Já Mabel considerou ser um “momento errado” para abertura da CEI e sugeriu que “ela poderia acontecer em outro momento”.
Na legislatura anterior, por exemplo, a CEI criada para investigar a Comurg terminou com um relatório sem responsabilizações e um acordo de bastidores que garantiu a vereadores indicações em secretarias do ex-prefeito Rogério Cruz, inclusive no primeiro escalão. O cenário atual, no entanto, parece caminhar em outra direção.
Recentemente, a Prefeitura de Goiânia aumentou o volume de emendas executadas e já superou os R$ 20 milhões nesta gestão. Uma emenda de R$ 50 mil de Cabo Senna foi incluída nos pagamentos. Segundo a Secretaria Municipal de Articulação Institucional e Captação, a própria Câmara demorou a fazer a regulação do pagamento das emendas, e que o ritmo de execução não significa reação política.
“Essa CEI é só uma de muitas que virão”
Além de defender a CEI da limpeza, Cabo Senna sinalizou que novas comissões estão em articulação. Entre elas, a chamada “CEI do Rombo”, que visa investigar a narrativa de um suposto déficit bilionário deixado pela gestão anterior. Cabo Senna já reagiu a fala do prefeito sobre o montante e aponta posicionamento do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado de Goiás (TCM-GO) como argumento de que Mabel dá ao tema contorno político.
“O prefeito Mabel vive dizendo que herdou um rombo de R$ 4 bilhões. Isso não é verdade. O Tribunal de Contas já mostrou que o déficit não chega a R$ 700 milhões”, disse o vereador.
A movimentação em torno da CEI gerou reação até mesmo entre aliados do Paço. De volta de viagem, o líder do prefeito na Câmara, Igor Franco (MDB), descartou recuo na instalação da CEI e mandou recado ao próprio Executivo. Em entrevista publicada nesta terça-feira (29) na coluna Giro, de O Popular, ele foi categórico: “Matar essa CEI é abrir uma caixa de marimbondo.”
Igor disse não haver risco de desistência entre os 16 signatários do requerimento e alertou que a pressão pode ter efeito reverso. “Se eu retirar a assinatura hoje, entram oito da oposição. E tem duas CEIs lá, da Saúde e do Rombo, esperando apenas três assinaturas”, afirmou.
Segundo ele, não se trata de chantagem política, mas de resposta à insatisfação crescente com a precariedade da coleta de lixo em Goiânia. “Em qualquer lugar que você anda não há limpeza. Vamos cobrar o cumprimento do contrato. Câmara não é fiscal?”, questionou defendendo autonomia frente ao Executivo.
“A Câmara é um poder independente. A harmonia deve existir, mas não vamos nos submeter a mandos e desmandos. O prefeito precisa entender que não vai mandar no Paço e na Câmara ao mesmo tempo”, afirmou.
A expectativa é que a CEI da limpeza seja instalada após o recesso parlamentar, mas sem chances para ser oficializada já na primeira semana. Isso porque ainda será necessário discutir a composição partidária, a eventual formação de blocos e outros ajustes entre os vereadores. “Vamos sentar, conversar e instalar. Está decidido”, finalizou o vereador.















